Elke, uma maravilha.

 

O telefone toca e minha mãe atende. Ouço uma sequência de referências que envolvem meu endereço e a nossa cadela, Elke.
Voz embargada da minha mãe em seguida indagando: “não tem outra coisa à fazer?”. Ela desliga o telefone, enxuga as lágrimas que já caem sob o seu rosto e diz que a Elke precisa ser sacrificada.

Elke ouve tudo sentada num tapete que fica na área, local onde passa a maior parte do dia.  Seus olhos observam a reação dos habitantes da casa com aquela notícia, e nem imagina o quanto será atingida.

Ela tem quase 9 anos e já viu muita coisa acontecer nessa casa.  Foi protagonista de grande parte delas. Já rasgou minhas roupas, já deu cria três vezes, já ficou doente e já viu nossos gatos partirem. Agora é a sua vez!

Trazida pelo meu pai, que nos deixou no fim de 2008, Elke é a terceira geração das Elkes.  A primeira viveu onze anos e morreu de velhice.  A segunda foi uma gata e durou menos de um ano, morreu atropelada (tadinha).  Já essa, encerra as gerações de uma forma bastante triste e com um agravante: era a lembrança viva do meu pai e o único contato físico que ainda tínhamos com ele. Quando partiu, passamos um tempo longe de nossa casa e a coitada foi a única que segurou a barra e não “arredou” uma pata sequer longe do seu cantinho.

Elke tem um olhar que fala, que chora, que se diverte.  O que esse olhar menos faz é latir.
Eu nunca gostei muito de bichos de estimação por conta da minha alergia e da responsabilidade que eles trazem, no entanto aqui em casa é uma questão de institucional: é necessário e problemático.

Creio que esta será a última espécie canina dessa casa.  Não pelo trauma que sua perca nos traz, mas pelo interesse das pessoas que ainda residem nessa casa.

Tem coisas que não substituem outras, e as que acreditamos substituir são apenas esconderijo de sentimentos e situações mal resolvidas.

Elke vai embora levando um pouco de nós, mas deixa tudo aquilo que não podemos esquecer nem esconder em lugar nenhum.

Vai em paz Elke… e deixa um pouquinho dela comigo.

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Sobre Suetonio Costa

Estudante de jornalismo, curioso, doido por cinema e tv, amante de música e cultura pop, fâ de trocentas coisas e mais quinhentas que não
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Uma resposta para Elke, uma maravilha.

  1. Seu post de hoje é emocionante e parece que “cruza” com algo que estou passando. Parabens pelas palavras.

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